Fundado por ex-banqueiros e advogados, o Vital quer reinventar a base do futebol brasileiro com estrutura enxuta, método e visão de longo prazo
Enquanto a Copinha monopoliza janeiro no calendário do futebol brasileiro — com transmissão de mais de 250 partidas ao vivo e 128 equipes em busca de olheiros atentos — existe um processo menos visível que impulsiona muitos desses jovens em direção a grandes clubes.
Nas periferias de São Paulo, em um campo alugado no bairro do Campo Limpo, cerca de 150 garotos entre 12 e 17 anos treinam quase diariamente sob um modelo que foge ao padrão tradicional de escolinhas de futebol. A proposta não é apenas formar jogadores: é transformá-los em ativos preparados para o mercado global do esporte.
Uma SAF com mentalidade de investimento
O Vital nasceu em 2021, logo após a regulamentação das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) no Brasil, e desde então foi planejado com a visão de empreendedores.
A operação consome cerca de R$ 3 milhões por ano e, em vez de manter alojamentos ou estruturas pesadas, aposta em uma estrutura leve: os atletas seguem morando com suas famílias e recebem bolsas simbólicas para se deslocarem aos treinos.
Para os fundadores, liderados por Carlos Guidi, esse modelo permite concentrar esforços no que realmente importa — o desenvolvimento técnico dos jogadores, com paciência e visão estratégica. “Não estamos tentando competir com clubes gigantes. Queremos construir um laboratório de formação”, afirma Guidi.
Do capital financeiro para o campo
O diferencial do projeto está no DNA empresarial, inspirado na lógica das startups e de venture capital: nem todos os jogadores vão se tornar estrelas, mas os poucos que se destacarem podem pagar toda a operação.
O grupo fundador reúne profissionais com passagens por bancos, gestoras de recursos e escritórios de advocacia, muitos com raízes na antiga Faria Lima — símbolo do capital financeiro paulista. Essa mesma cultura de processos claros, metas definidas e governança se reflete no modo como o Vital opera.
A estrutura acionária também segue essa lógica: 60% pertencem aos executivos e técnicos, valorizando quem está “no campo”, enquanto os 40% restantes ficam com investidores externos.
Formação técnica com visão global
No campo, o projeto não se restringe aos treinos tradicionais. A formação é voltada para o futebol moderno, exigente tanto taticamente quanto cognitivamente — algo que os grandes clubes vêm buscando com mais intensidade.
A filosofia vai além do físico: exercícios que estimulam visão periférica, tomadas de decisão em alta velocidade e fundamentos técnicos são pilares do método. “Atletas hoje precisam dominar o jogo com bola e com a cabeça”, diz um dos treinadores responsáveis pelo projeto.
Conexões com o mercado
Originalmente focado em talentos que amadurecem tardiamente — muitas vezes descartados por clubes tradicionais — o Vital ampliou seu escopo e hoje atende a uma gama maior de perfis. A ideia é preparar jogadores que já possam entrar com vantagem nas categorias de base dos grandes clubes brasileiros.
Atletas formados pelo projeto já seguiram para clubes como São Paulo, Fluminense, Palmeiras e América-MG, e a meta é ter entre 15 e 20 desses talentos em times de elite até o final de 2026.
Quando esses jogadores forem negociados, o Vital seguirá detendo parte dos direitos econômicos como clube formador — traduzindo formação em retorno financeiro.
Uma nova base para o futebol
Se a Copinha é a vitrine que encanta torcedores e olheiros todos os anos, projetos como o Vital começam a ser a base estratégica por trás do espetáculo, combinando visão empresarial, técnica esportiva e paciência para formar talentos — com foco tanto no campo quanto no mercado global do futebol.
